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Oncopediatria10 minPor Linave Vieira

Câncer infantil: conhecer os sinais pode salvar vidas

Entenda os principais tipos de câncer na infância, como diferem do câncer em adultos e quais sinais de alerta pais e responsáveis devem observar para ajudar no diagnóstico precoce.

Mãos de pediatra segurando gentilmente as mãos de uma criança em ambiente médico acolhedor.Imagem ilustrativa gerada por IA

Vamos começar com uma boa notícia antes de falar de um assunto que ainda assusta muitas famílias: o câncer infantil tem cura na maioria dos casos quando descoberto cedo. Segundo a OMS - Organização Mundial da Saúde, mais de 80% das crianças tratadas em países com bom acesso à saúde são curadas. Não é pouco. É a diferença entre o medo e a esperança, e é exatamente por isso que conversar sobre o tema com clareza faz toda a diferença.

No mundo, cerca de 400 mil crianças e adolescentes de 0 a 19 anos recebem o diagnóstico de câncer por ano. No Brasil, o INCA - Instituto Nacional de Câncer estima aproximadamente 8 mil novos casos ao ano. É uma doença rara na infância, mas que ainda é a principal causa de morte por doença de 1 a 19 anos no país. A diferença entre esses dois números (raro, mas letal quando tardio) é justamente o que torna o diagnóstico precoce tão importante.

O que torna o câncer infantil diferente do adulto

Aqui vai um ponto que muita gente não sabe: o câncer em crianças é uma doença completamente diferente daquela que vemos em adultos. No adulto, a doença costuma estar ligada ao envelhecimento das células, a e xposicao de fatores cancerigenos, como tabagismo, álcool, luz solar sem proteção e diversas outras ao longo de toda vida. No criança, não tem nada a ver com isso. Nada de cigarro, nada de dieta, nada de estilo de vida.

O que acontece é que algumas células durante o desenvolvimento embrionário não desenvolvem adequadamente. Elas podem ficar presas num estágio imaturo e se multiplicar de forma desordenada e rápida. É por isso que o tumor infantil costuma crescer mais rápido. Mas, por outro lado, essa mesma característica faz com que ele responda melhor à quimioterapia, o que é uma grande vantagem no tratamento.

Em resumo: cresce rápido, mas responde bem ao tratamento (o que chamamos de quimiosensibilidade). E é esta resposta que, quando bem conduzida, leva à cura.

Os tipos mais comuns de câncer na infância

Os tipos de câncer infantojuvenis são bem diferentes dos que aparecem em adultos. Na população adulta é mais comum carcinomas, entre eles mama, próstata, pulmão, cólon.
Já em crianças os frequentes são:

  1. Leucemias: são os mais comuns, representando cerca de 30% dos casos. A LLA - Leucemia Linfoblástica Aguda é a leucemia infantil mais comum, e com o melhor índice de cura. Pode se manifestar com febre prolongada, manchas na pele, dor nas pernas e perda de peso.
  2. Tumores do sistema nervoso central: o segundo grupo mais comum. Podem se manifestar com dor de cabeça persistente, vômitos matinais, convulsões e mudanças de comportamento.
  3. Linfomas: Constituem o terceiro grupo mais frequente. Um sinal clássico é o aumento de linfonodos (ínguas) sem infecção associada e que não regridem espontâneamente.
  4. Neuroblastoma: tumor abdominal mais comum em crianças pequenas, frequentemente percebido por uma massa no abdômen e perda de peso.
  5. Tumor de Wilms: tumor no rim que costuma ser percebido quando os pais notam uma bolinha ou aumento do volume na barriga da criança.
  6. Sarcomas ósseos: São mais frequentes na adolescência. A queixa principal costuma ser dor óssea que não melhora com remédio, associado a tumorações no local.
  7. Retinoblastoma: tumor no olho cujo sinal mais conhecido é aquele reflexo branco, que muitas vezes aparece em fotos com flash.

A maioria desses nomes é estranha para quem não é da área. E tudo bem. O importante não é decorar cada tipo, mas saber que existem sinais comuns que merecem atenção.

Sinais de alerta: o que observar em casa

Aqui chegamos ao coração da questão. Os sintomas do câncer infantil são, na maior parte das vezes, inespecíficos. Ou seja: parecem coisas comuns da infância. Febre? Todo criança tem. Dor nas pernas? Muito comum no crescimento. Íngua? Pode ser qualquer coisa.

O que diferencia um sintoma comum de um sinal de __alerta__ não é o sintoma isolado, mas a persistência e a progressão. Quando algo não melhora ou piora sem explicação clara, é hora de investigar com mais atenção.

Fique atento a estes sinais:

  • Febre que não passa sem causa infecciosa aparente
  • Dor óssea que aumenta progressivamente e limita as atividades da criança (a criança para de correr, de brincar, de ir à escola)
  • Manchas roxas, petéquias (pontos vermelhos na pele) ou sangramentos sem trauma associado
  • Palidez e cansaço que não melhoram
  • Reflexo branco na pupila (leucocoria) ou estrabismo de início recente
  • Caroços ou massas em qualquer parte do corpo, especialmente no abdômen, pescoço ou membros
  • Dor de cabeça que não melhora com remédio, muda de padrão, fica mais frequente, acorda a criança à noite, ou que piora pela manhã acompanhada de vômitos
  • linfonodomegalia (Ínguas aumentadas) nódulos no pescoço ou em outras partes do corpo que aumentam com o tempo, que não somem espontâneamente.
  • Perda de peso, falta de apetite e sudorese noturna persistente
  • Alterações neurológicas, como mudanças na visão, comportamento, no equilíbrio ou na marcha

Antes de entrar em pânico ao ler essa lista, respire. A maioria desses sinais, isoladamente, está ligada a condições benignas e muito comuns na infância. A presença de um ou outro sintoma não significa câncer. Mas quando eles persistem ou se somam, a investigação cuidadosa é necessária, e é aí que o pediatra entra.

O pediatra como ponte para o especialista

O pediatra geral é a porta de entrada. É ele quem conhece a criança, quem acompanha o crescimento e o desenvolvimento, e quem os pais procuram primeiro. Mas aqui há um desafio real: como o câncer infantil é raro, um pediatra geral pode ver apenas um ou dois casos em toda a sua carreira. Isso significa que o câncer não será a primeira hipótese que vem à cabeça diante de uma febre persistente ou de uma dor nas pernas, e isso é compreensível.

É exatamente aqui que a observação dos pais e responsáveis se torna tão valiosa. Ninguém conhece a criança melhor do que quem convive com ela todos os dias. Os pais são os primeiros a perceber quando algo está diferente, quando o filho não está agindo como de costume, quando a dor não está melhorando. Um pediatra cuidadoso valoriza essa percepção dos pais, reavalia a criança sempre que necessário, mantém o acompanhamento até que os sintomas sejam esclarecidos e discute o caso com um especialista. (Estou a disposição para contato neste link.)[https://linavevieira.med.br/#contato]

Quando há suspeita de algo mais sério, o encaminhamento para um oncologista pediátrico ou para um centro de referência em câncer infantil deve ser feito sem demora. Esse especialista é quem vai confirmar (ou descartar) o diagnóstico, fazer o estadiamento e iniciar o tratamento adequado, com a melhor estratégia para cada tipo de tumor.

Não há problema em perguntar ao pediatra: 'Doutor, esse sintoma pode ser algo mais sério? Acha que precisamos investigar mais?'. Um bom profissional nunca se incomoda com essa pergunta. Pelo contrário, ela mostra que os pais estão atentos no cuidado da criança.

Por que o diagnóstico precoce muda tudo

Pode parecer dramático, mas a diferença entre descobrir cedo e descobrir tarde é, literalmente, a diferença entre a vida e a morte em muitos casos. O diagnóstico tardio significa que o tumor teve mais tempo para crescer, invadir estruturas (metástases) e pode se tornar mais resistente ao tratamento. Com isso, o tratamento fica mais agressivo, as sequelas são mais comuns e as chances de cura diminuem.

Por outro lado, quando o câncer é diagnosticado precocemente:

  • O tratamento pode ser menos agressivo, com menos efeitos colaterais
  • As chances de cura são significativamente maiores
  • O risco de sequelas a longo prazo pode diminuir
  • A criança retorna mais rápido às suas atividades normais

Os dados confirmam isso de forma clara. Em países de alta renda, onde o diagnóstico e o tratamento são acessíveis e oportunos, mais de 80% das crianças com câncer são curadas. Em países em desenvolvimento, esse número cai para cerca de 50%, e um dos principais fatores é justamente o atraso no diagnóstico. No Brasil, apesar de ser um país em desenvolvimento a chance de cura ultrapassa 70% quando o tratamento é iniciado a tempo.

O que levar desta leitura

O câncer infantil é uma doença séria, mas não é uma sentença. A maioria das crianças e adolescentes pode ser curada, especialmente quando o diagnóstico chega cedo. Para que isso aconteça, três peças precisam se encaixar:

  1. Pais e responsáveis atentos: conhecem a criança, percebem o que está diferente e não hesitam em procurar ajuda quando algo persiste.
  2. Pediatras cuidadosos: valorizam as queixas, investigam com cuidado e encaminham ao especialista quando necessário, sem medo de errar.
  3. Acesso ao tratamento especializado: centros de referência em câncer infantojuvenil, com equipe multidisciplinar, são fundamentais para o sucesso terapêutico.

Conhecer os sinais de alerta não é para assustar ninguém. É para dar às famílias e aos profissionais de saúde uma ferramenta a mais para agir no momento certo. E, quando se trata de câncer infantil, o momento certo faz toda a diferença do mundo.

Contéudo extra

Se este artigo te interessou saiba que eu tenho um treinamento teórico-prático em Diagnóstico Precoce do câncer infantojuvenil para pais, responsáveis e educadores e também um treinamento teórico-prático em Diagnóstico Precoce do câncer infantojuvenil para profissionais e estudantes da área da saúde.

[Estou a disposição para contato neste link.](https://linavevieira.med.br/#contato)